2012-09-22

DEUS: mito ou realidade?



Escrito por Francisco Costa em 2011.10.24.


Há algum tempo foi-me lançado um desafio: responder, de forma sistemática e com fundamentos sólidos e profundos, à questão que é tão antiga quão antiga é a existência humana e cuja resposta orienta a vida de quem a dá e aceita, de forma inegável e irrecusável:


DEUS EXISTE?

No momento, pareceu-me que o grau de dificuldade daquele desafio era mínimo, sendo eu formado em Teologia / Ciências Religiosas e estando integrado de forma activa na Igreja.

Porém, ao debruçar-me sobre o assunto deparei-me com algumas questões:

  • Num primeiro momento, questionei-me sobre a intenção de quem me lançava o desafio: será apenas um simples artigo de esclarecimento teológico / científico da questão de Deus ou será a procura de uma resposta existencial suscitada pela dúvida instalada no mais íntimo do ser daquele que me lança o desafio?
  • Num segundo momento, pareceu-me tratar-se da segunda parte da questão anterior. Do ponto de vista teológico / científico, quem me lançava o desafio tinha tanta ou mais competência que eu para dar uma resposta, visto ser também formado em Teologia e o seu conhecimento científico ser mais alargado e profundo que o meu.
  • Surge então um terceiro e último momento: a dificuldade. Teoricamente, nada havia que eu pudesse dizer que não fosse já do conhecimento de quem me lançava o desafio. Então… que dizer e como dizê-lo? Como “provar” que Deus realmente existe e não é resultado do ‘brilhantismo’ da mente humana? Como mostrar que o Homem não é um fim em si mesmo, mas que existe por OUTRO e para o OUTRO, que é Deus?


Foi então que fiquei mudo, sem resposta à vista e, em simultâneo, perturbado, pois como poderia um teólogo e católico praticante não ter uma resposta na ‘ponta da língua’…

Decidi deixar que o tempo me inspirasse a resposta.

E assim aconteceu. Estava na celebração de imposição das cinzas, na quarta-feira de cinzas, quando, depois de escutar a Palavra proclamada e já sem qualquer preocupação de encontrar a resposta, se fez luz. A resposta havia chegado.

Na verdade, mais do que procurar Deus com a razão, deve procurar-se com o coração, isto é, mais do que procurar respostas teológicas e científicas, o ‘comprovar’ a existência de Deus passa pela experiência pessoal do Seu Amor, solidificada na vivência em comunidade. Não significa que se deva renunciar ao conhecimento racional, pois se é parte integrante da natureza humana, criada por Deus, é porque é importante e não deve ser desconsiderado. Mas, diria que o conhecimento racional de Deus sucede o conhecimento existencial, isto é, após a descoberta de Deus pela praxis da vida, é importante que o Homem aprofunde o conhecimento de Deus, com a ajuda da ciência, que lhe ilumine a razão e lhe conceda o discernimento necessário para saber distinguir a presença do Deus verdadeiro dos falsos deuses, bem como o conhecimento profundo de si mesmo, da sua natureza e da presença divina na sua vida. Melhor! Mais do que o conhecimento científico, deverá o Homem conhecer profundamente a Palavra de Deus, escutada da boca dos profetas, da Igreja. Esta [a Palavra] é viva, eficaz e promotora de vida. Diz a teologia que no Livro dos Actos dos Apóstolo, a Palavra de Deus é vista como a grande promotora da história, intervindo nela e precedendo-a nos acontecimentos. É dinâmica. Aquele que a escuta e nela crê, tem a vida eterna. Ela revela Deus, tornando a Sua presença efectiva, real e eficaz na existência humana. É por Ela, através da estupidez da pregação, como dizia São Paulo, que o Homem se abre a Deus. E a interrupção da Sua escuta gera a morte. Diz o Livro dos Actos que, aquando da escuta da Palavra pregada por Pedro, um homem sentado num muro, adormeceu, caiu e morreu, ou seja, no momento que interrompe a escuta, por via do sono, morre.

Mas esclareçamos melhor a questão.

Diz o Catecismo da Igreja Católica que há duas formas de chegar a Deus: uma é pela luz natural da razão e outra pela experiência pessoal e comunitária de Deus. Tal perspectiva confirma o que antes disse. Todavia, julgo que a primeira não conduz a um conhecimento de Deus, senão que apenas indica a existência de uma entidade que supera a criação. E aqui está a verdadeira questão: não se trata de comprovar a existência de Deus, pois essa é uma evidência histórica, científica e existencial, mas antes de definir Deus, ou seja, a questão que verdadeiramente assola o espírito humano é esta: quem é Deus?

Esclareçamos.

Chegar a Deus pela luz natural da razão significa que pela contemplação e pelo raciocínio científico o Homem concluirá necessariamente que não é o fim último da existência. Ao contemplar a natureza é inevitável concluir que o equilíbrio, a harmonia e o poder que manifesta não é obra humana, o que, aliás, ultrapassa largamente a sua capacidade e razão. Não surpreende a experiência de que a intervenção humana provoca graves desequilíbrios naturais, que obrigam a natureza e repor o equilíbrio. Muitos dos fenómenos naturais ocorrem como resposta da Natureza, no sentido do restabelecimento do equilíbrio e harmonia que lhe são próprios. E se esta observação provoca no espírito humano sentimentos de pequenez, admiração e grandiosidade, mais profundos e abrangentes se tornam quando se alarga a contemplação ao Universo. Os seus limites extravasam por completo o horizonte humano, que, apesar dos grandes avanços tecnológicos e científicos, não os pode alcançar. E de onde procedem todas estas maravilhas? Da sabedoria humana julgo que não será…

Mas pela ânsia de poder e sabedoria o Homem não se resigna e parte na viagem do conhecimento. Pela razão, inicia um caminho de descoberta, na tentativa de compreender e dominar a realidade evolvente. E, de facto, são visíveis os progressos. Pela ciência tem o Homem alcançado um conhecimento notável, inclusive, na explicação inteligível de tantas realidades outrora pertencentes à esfera do oculto e do transcendente. Contudo, em nome da honestidade técnica e científica, não é possível declarar a omnipotência, omnisciência e omnipresença da ciência proveniente da natureza humana, que perante realidades próprias da existência, que ofuscam o brilhantismo da mente, são reduzidas à esterilidade, isto é, confrontam o ser humano com a precariedade, a debilidade e a finitude existencial. Pelo sofrimento, ainda que em boa parte solucionável pela sabedoria humana, o homem desfalece e contacta de perto com a debilidade; pela velhice, experimenta o declínio humano das suas faculdades e depara-se com a precariedade; pela morte, entende a sua finitude, pois não há tecnologia ou ciência que o livre de tal sentença. Por esta via, experimenta o homem que não pode dar a si mesmo a vida que deseja, pois esta escapa-lhe por entre os dedos sem que nada possa fazer… e chegará à conclusão que a existência supera a razão; não pode abarcar a vida nem contê-la em si mesmo, pois esta transcende-o. É levado a concluir que a existência ultrapassa os limites humanos. Já o filósofo grego da antiguidade, Aristóteles, falava do motor imóvel ou 1º motor, como a entidade superior ao mundo sensível, que não tendo princípio se constitui como o próprio princípio.

Mas, esta prova racional não conduz o Homem ao Deus de Jesus Cristo, senão que apenas lhe evidencia que, na pirâmide existencial, não ocupa o lugar de topo. É pela vivência do encontro com Deus que chegará ao seu conhecimento, pois este se revelará e dará a conhecer. Na verdade, não é o Homem que chega ao conhecimento de Deus, mas é Deus que se dá a conhecer ao Homem. E fá-lo na realidade histórica concreta, pois é na vida concreta que Deus se mostra e actua, respeitando sempre a vontade livre com que dotou a natureza humana. Este encontro dá-se no mais íntimo do ser, naquele lugar recôndito que Deus reservou para Si no mais profundo do Homem e que fala a Constituição Dogmática do Concílio Vaticano II Gaudium et Spes, no nº 16. Diz um conto oriental a este propósito que os deuses tinham um tesouro que queriam esconder do Homem e não encontravam o sítio ideal. Se o punham nos limites do céu, ou no profundo dos mares ou da Terra, o Homem haveria de lá chegar e descobri-lo. Foi então que lhes ocorreu escondê-lo no coração do Homem e, na verdade, este não o conseguiu descobrir. Assim, é pela descoberta deste tesouro, que é Deus e que reserva no coração humano um lugar para Si, que o Homem faz a experiência de Deus, na qual Ele se dá a conhecer.

Mas como se faz esta experiência?

Conhecer Deus pela experiência do Seu Amor misericordioso não é fruto da razão nem do esforço do cumprimento moral da doutrina cristã. É dom de Deus, que o Homem se disponibiliza, ou não, a receber livremente. E fá-lo através de um caminho que percorre pela vida e que o conduz à Vida de Deus e que, na minha modesta opinião, assenta em três grandes princípios: verdade, liberdade e amor. Sem um destes princípios, será difícil chegar a Deus.

O grande drama existencial humano prende-se com o primeiro princípio: a verdade. A vida humana assenta numa premissa falaciosa que torna falso o conceito antropológico, com todas as consequências daí advenientes. E a mentira é simples: a deificação do Homem. A verdade desta mentira é que o Homem retira Deus da sua esfera existencial, assumindo o lugar central na sua vida. O Homem assume o lugar de Deus, prescindindo do verdadeiro autor e criador de tudo o que existe e reclamando para si a decisão sobre o bem e o mal, na medida em que se constitui como juiz em causa própria e decide o que é bom ou não para a sua vida. E aqui surge o problema: se Deus é Vida, ao cortar com Ele corta com a vida e morre. Mas como está criado para viver, procurará insistentemente essa vida; mas não a encontra. Se Deus é Amor, que impulsiona a doação gratuita de si mesmo ao outro, gerando comunhão, ao cortar com Ele corta com o Amor e fica incapacitado de amar, de se doar e, consequentemente, fechado em si mesmo, numa atitude egocêntrica. E esta experiência assente na mentira existencial mudará no Homem o conceito de si próprio, impulsionando-o à procura da vida e do amor perdidos, parte integrante da sua natureza, de forma egocêntrica, isto é, imprimindo um movimento de rotação da sua vida em torno de si mesmo. Deste modo, o primeiro passo é a Verdade.

Diz São João no seu evangelho que conhecer a verdade nos liberta. A Liberdade é o segundo aspecto importante na descoberta de Deus. A mentira, que conduz o Homem e julgar-se Deus, retira-lhe a liberdade. Fica escravo de si mesmo e essa escravidão impede-o de ver a Deus. Quanto mais procura a felicidade, menos a encontra, pois mais se centra em si mesmo. E quanto mais se torna egocêntrico, maior é a escravidão. Procurando respostas e caminhos de felicidade, nada encontra, pois procurá-las-á nos bens que estão ao seu alcance: dinheiro, prestígio, fama, honra, família… e estes bens são efémeros e incapazes de conceder uma felicidade duradoura, senão que também ela efémera e condicionada. E esta incapacidade de encontrar a eternidade feliz, gera angústia, revolta, egoísmo e uma luta diária inglória e desgastante, pois ao menor descuido e desatenção todas as seguranças humanas podem simplesmente perecer… na verdade, escravizado pela mentira ontológica, o Homem não pode chegar a Deus. Só quando conhecer a verdade e, humildemente, nela crer e a aceitar na sua vida, poderá experimentar paulatinamente a liberdade autêntica e só na liberdade poderá verdadeiramente amar.

Assim, liberto pelo conhecimento e aceitação da Verdade, que, como diz o evangelho, é Cristo, poderá o Homem verdadeiramente chegar ao Amor autêntico, que o mesmo é dizer, chegar a Deus.

Mas o que impele o Homem para esta experiência profunda do Amor de Deus?

Em jeito de resumo, poder-se-á dizer que o Homem tem dentro de si tem uma lei gravada: a Lei da VIDA, que não deu a si próprio. Como dizia atrás, o Homem está criado para a Vida. Aliás, se observarmos o conceito filosófico da Vida, concluiremos que esta é o que verdadeiramente existe. A morte, filosoficamente, não existe como entidade própria e autónoma. Traduz-se apenas como a ausência da Vida, que é o suporte do seu conceito. Se não existir Vida, jamais poderá ter significado a morte. Assim, o Homem tem um princípio de Vida. E a Vida, na sequência de tudo o que já ficou dito, necessita de uma fonte e garante que não se esgotem. E é a necessidade de encontrar esta verdadeira fonte e garantia de Vida que impulsionam o Homem na sua procura constante. Por isso, a existência é um Caminho de procura da Verdade que conduz à Vida. E são, em última instância, as frustrações, desilusões e experiências vazias que as realidades materiais e racionais proporcionam ao Homem que o incentivam na busca incessante desta verdadeira fonte e garantia, que é DEUS. Já afirmava Santo Agostinho que, sem o saber, procurava incessantemente a Deus e a sua alma só repousou verdadeiramente quando O encontrou. É necessário que o Homem se questione, que entre em crise e experimente o vazio existencial que as realidades deste mundo não podem preencher, para poder disponibilizar o seu espírito ao Espírito de Deus, que lhe dará testemunho de Seu Amor gratuito e verdadeiro, que lhe restituirá a Vida perdida.

DEUS, que é Amor, é a Fonte e o Garante da Vida, que se deixa encontrar por todo aquele que o procura.

Francisco Costa