2009-09-08

O Corpo


Catarina sabia que não seria fácil. Mas era gratificante poder contribuir para algo importante. Estava frio, muito frio, mesmo para aquela altura do ano. A pequena ilha era no Norte. Catarina ansiava por voltar a paragens mais amenas e rever as pessoas de quem tinha saudades.

Quando encontraram o corpo, nada parecia indicar que tivesse estado tanto tempo coberto por água, tal era o estado de conservação. Mas era o local mais provável para o encontrarem. O invólucro, que havia antes contido vida, estava agora inerte. Como se a vida tivesse continuado e o corpo ficado ali. Apresentava sinais de ter vivido naquela zona pela forma como tinha sido sepultado. Tinha crescido e vivido parte da sua existência em paragens mais amenas. As feições assim o indicavam.



O trabalho de Catarina, pela sua natureza peculiar, era algo a que dedicava grande cuidado.

Antes de condicionarem o corpo para transporte foram tiradas várias fotografias. Podia assim estudá-lo enquanto não obtinha uma radiografia tridimensional. Uma coisa era certa, tratava-se de uma mulher.

Catarina sempre tivera a certeza de que era àquele tipo de Arqueologia que queria estar ligada. De uma forma ou de outra, sempre o sentira. Nada a estimulava mais do que, partindo de tão pouco, provar tanto.

Miguel estava com Catarina, como sempre. Ele apreciava estar com Catarina em alguns momentos e nas paixões dela. Nem sempre. Tirava fotografias. Perdia-se nas mil e uma curiosidades do local. Catarina sentia-se segura perto dele.

Catarina era de uma família grande e não tinha irmãos, mas isso não a impedia de fazer amizade com todos os que cruzavam o seu caminho. Tivera uma infância e adolescência feliz, mas perturbada por acontecimentos que a marcariam para sempre no relacionamento mais próximo com algumas pessoas. Mas agora era feliz e queria que todos os seus amigos estivessem ali. Seria bem melhor. Para já, Miguel era suficiente. Com ele, Catarina aprendera a gostar tanto de homens como de mulheres.

Pelo que observara no local e agora em fotografias, sabia que o corpo estava envolto numa espécie de lençol. O tecido envolvia-o de uma forma diferente das tradições locais. Como se de vestes se tratasse.

O transporte foi feito de barco para evitar os sobressaltos de outras formas de viajar. Não era uma viagem normal. Não era uma carga normal. Assim era mais seguro, e Catarina insistia sempre em ficar por perto das suas preciosas descobertas. Era assim que se comportava com tudo e todos por quem se sentia responsável. Era assim com os três filhos: duas raparigas e um rapaz. Era assim com todos os seus amigos. Quanto mais próximos, melhor. Nem sempre era possível e isso deixava-a como que amputada. Desta vez, apenas Miguel estava com ela.

Miguel era muito desligado de tudo, menos das suas engenhocas e dos seus planos conspiratórios. Quando não estava satisfeito com ele próprio arranjava sempre forma de torturar alguém com o seu mau humor. Desta vez sobrara para Catarina. Catarina saiu.

Enquanto se dirigia para a plataforma para verificar pela oitava vez se o corpo estaria seguro, apercebeu-se de que alguém a observava de longe. Apesar da sensação de desconforto, continuou. Quando subiu, saindo da plataforma onde o corpo estava condicionado, já não viu ninguém. Estavam marinheiros por perto, mas nenhum deles parecia estar interessado no que Catarina andava a fazer.

Andou um pouco pelo convés, apreciando o ar menos arrepiante por onde passavam agora, para não ter de pensar no que Miguel havia dito. O terceiro filho não era de Miguel. Ele não se importava, porque sempre o soubera, e o seu interesse era Catarina, mas conseguia ser deveras insensível mesmo quando não queria.

Quando Catarina voltou para a cabine, na popa do barco, Miguel estava no computador a preparar as fotografias para ela analisar. Falaram do que se tinha dito. A conversa serviu. Catarina acabou por deixar o seu coração levar a melhor. E Miguel, desligado como era, já nem se lembrava do que tinha dito e do quanto Catarina ficara magoada.

Após uma visualização mais cuidada das fotografias, Catarina teve uma estranha sensação de familiaridade com aquela estranha personagem. Parecia que a conhecia. A paixão pelo seu trabalho não se resumia apenas a uma análise dos locais e dos corpos. Tinha de ser antigo. Tinha de ter significado.

Os filhos tinham ficado em casa de uma das avós por causa do frio. Inês ia fazer (como ela fazia questão de afirmar) dez anos, corria pelo barco curiosa com todos os cantos e recantos; parecia uma versão em miniatura da mãe. Leonor, com cinco anos, parecia que tinha acabado de mudar as pilhas e saltava de contente ao colo do pai; mais parecida com o pai, mas com a delicadeza da mãe. O pequeno Artur, de apenas vinte e três meses, estava ao colo da mãe, de onde tentava agarrar um dos objectos mais próximos; tinha os olhos da mãe, mas fazia lembrar outra pessoa.

Quando chegaram ao porto tiveram de deixar o corpo no barco. Já era tarde e o responsável pela segurança do transporte do corpo para o museu tinha-se atrasado por algum motivo de força maior, ou talvez não.

No dia seguinte, antes de qualquer outra pessoa, Catarina já estava à espera junto do barco. Sem o capitão não podia entrar ninguém. Com Catarina estava Tiago que, mesmo não ligando muito a mulheres, sempre quisera ser pai. Era com Tiago que Artur se parecia.

Ansiosa por tirar dali o corpo, quase nem reparava que algo se movia dentro do barco. Era sem dúvida uma figura humana. Catarina correu para o barco, seguida de Tiago. Procurou ver o melhor que pôde sem entrar no barco. Estava apreensiva. Quem ali estivera, desaparecera.

O capitão apareceu ao fim de poucos minutos e garantiu que não ficara ninguém dentro do barco. Pelo menos, ninguém vivo.

Catarina não sorriu.

A sua sensação de familiaridade deu-lhe uma certeza.

O corpo já não estava na plataforma.

Aquele corpo era de Catarina.



Fim



--
Escrito por Helder de Brito Cabeçadas Dias em 11 de Agosto de 2009 (990 palavras)
Oferecido a Maria Madalena de Araújo Lima Salinas de Moura em 13 de Agosto de 2009